não sei por onde começar. havia alí, naquele vilarejo onde o vento faz a curva, um ser pequeno, de olhos grandes e felinos, fazia algumas caretas estranhas que variavam entre sensações doces e amargas e... seus dois braços mais pareciam asas. descobri que esse ser tinha alma feminina e masculina. atendia pelo nome de sphota, pois havia escolhido sua alma feminina desde o dia em que um raio acertou-lhe em cheio seu seio esquerdo. era estranho observá-la; por vezes demonstrava ter patas firmes como de elefantes, daquelas que soam fincar na terra e movê-la a cada passo que dá - sem falar da quantidades de memórias tão cheias de detalhes que guardava em cada fio de encaracolado cabelo - e por vezes não conseguia parar quieta do tanto que sobrevoava por todos os cantos que seus olhos alcançavam. batia as asas tão rápido. pulsava na mesma rapidez do seu coração (que acontecia de ser um órgão enorme e completamente destrambelhado). certo dia, sphota tava lendo um livro sentada na janela de sua casa na árvore e de repente não conseguia mais ler. olhava para as palavras, mas nenhuma delas parecia fazer sentido. era como se tudo o que ela sempre soubera tivesse se desmanchado em sua mente. começou a ficar ofegante, a sentir uma sensação de asfixia. as lágrimas foram vindo cada vez mais e mais; não conseguia abrir seus olhos pois as lágrimas pareciam pesar sobre eles. depois de alguma horas chorando seu coração foi voltando a pulsar mais mansinho, suas asas que estavam duras de tão tensão foram ficando leves novamente e sua patas, cuidadosamente, fincaram na terra. ao abrir seus olhos percebeu que estava no meio do mar, mas em uma profundidade que era confortável para seu tamanho, no entanto, - para todos os cantos que olhava- só avistava a imensidão do azul e um silêncio profundo. ela se pôs a pensar em todos os porquês possíveis, em como teria parado alí; pensou em tudo o que pode. sentiu um vazio imenso, uma saudade de poder ter ao alcance de seus olhos as raízes que haviam lhe colocado nesse mundo. percebeu, então, que havia morrido. nesse instante em que percebeu sua morte já não havia mais dor, apenas a sensação de estar ainda mais viva. bom, acho que agora eu já sei por onde posso começar...