quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

outro dia saí na rua com a caixa d'água lá de casa pra pegar uma tempestade pra fazer bolinho de chuva. era de noite, no clima tempo, uma chuva forte se aproximava. mas errou, quando eu olhei pro céu aquela noite - fiquei com a impressão de que o céu só estava me esperando olhar - eu vi uma estrela cadente. e depois outra. e outra. até que o céu estivesse inteiro riscado de brilhinhos brilhantes. a cena durou muito tempo. mais que cinco tempos. as pessoas foram saindo de casa para olhar a fonte de tanto pisca pisca. acho que todo mundo viu. e todo mundo teve direito a muitos desejos. o que foi maravilhoso. o problema é que eles começaram a se realizar quase que instantaneamente. então não foi tão maravilhoso assim. as pessoas pediam coisas absurdas, coisas terríveis. eu fui andando pela rua e assistindo meus vizinhos com suas casas que flutuavam pra longe dali, que jorravam notas de cem reais pelas janelas, que eram cercados por paparazzis para entrevistas, que se tornavam ridiculamente sarados e jovens. e de repente já não sentia o chão em baixo de mim. mergulhei e quase me afoguei. a rua tinha virado um enorme rio. lá no fundo, achando que era o meu fim, fui salvo por uma linda mulher que cantarolava uma canção para me acalmar em meus ouvidos. fui depositado na margem do rio pela sereia minha mãe. só minha mãe para me salvar mesmo. as sereias cantavam e arrastavam as pessoas pro fundo do rio. do lado de fora as pessoas brigavam entre si, tinha lugar pegando fogo, Lucas Alves passou voando com suas novas asas de anjo, me deu um pescotapa e penetrou no que parecia ser a maior festa do ano na casa do fim da rua. parecia o juízo final. o caos era tão grande que ninguém percebia que a chuva de estrelas continuava a iluminar a noite como no inferninho da boite do ilha clube. estava rareando, daqui a pouco ia parar. eu mesmo não tinha nem pedido nada ainda. eu só queria mudar de rua. e naquele momento específico eu tinha a prova de que meu desejo era genuíno e fundamentado. mas percebi que eu não tinha mais tempo. se quisesse salvar a Terra de um colapso teria que abdicar de tudo e fazer o que tinha de fazer. então peguei minha caixa d'água e corri pro horizonte da cidade, que era onde caíam as estrelas. cheguei no segundo derradeiro e consegui pegar a última estrela. ela caiu direto dentro da caixa que tinha ainda um pouco de água do Rio Minha Rua. peguei na mão, ela ainda brilhava. sentei na beiradinha do horizonte, olhei fixamente pra lua, lancei a estrela e pedi que tudo voltasse a ser como era antes da chuva. um buraco se abriu no céu, a estrela passou direto para dentro dele e sumiu. o buraco piscou pra mim, uma piscadela de cumplicidade e, em seguida, sumiu também. olhei para trás, a cidade estava soltando a fumaça poluidora de sempre. tudo calmo. essa noite tive que comer só arroz com feijão. o bolinho de chuva que era mistura tinha ficado pra outro dia.


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