domingo, 16 de novembro de 2014

vô luis



A memória que eu mais gosto da minha infância é a da imagem do vovô Luis. Ele se transformou em partículas-brilhantes-soltas-no-ar aos 37 anos num acidente de caminhão em uma das viagens Bragança/Belém que ele sempre fazia. O caminhão capotou e dentre os quatro que ali dentro estavam, só o vovô se foi. Era 1973, minha mãe tinha 2 anos e eu nem nesse plano estava... Mas lá pelos meus 5 ou 6 anos de idade a pessoa que eu mais sentia falta no mundo era o vovô. 
Li quase todas as cartas que ele escreveu a vovó Decy, vi todos os álbuns de fotos que ele tava. Conversava com ele, sempre. E doía não conseguir vê-lo em outro lugar que não fosse a minha imaginação. Taline, amiga da escola, me ensinou  o jogo da borracha. Escrevia na borracha sim, não ou talvez, fazia uma pergunta, jogava a borracha e recebia a resposta do vô Luis. Várias vezes eu perguntava: "o papai e a mamãe vão casar de novo?", "o papai e a mamãe ainda se amam?", "vou passar de ano no colégio?", "voco, o senhor sente saudade de mim?"... Saudade. Passava várias noites chorando sem nem conseguir dormir; mamãe me colocava na rede e me embalava até que o choro amenizasse e dizia "o seu avô tá sempre com você"... Quantas vezes eu olhava pro céu e procurava ela e queria entender o porquê dele ter partido... Até que um dia eu o vi! Avistei a estrela mais brilhante da noite e ela era o vovô. As demais estrelas ao redor eras as pessoas que estavam com ele no céu, como a bisa bita e a bisa nenêm. Em todos os momentos de medo, solidão, de tristeza; eu sabia que o vovô tava lá de cima brilhando pra mim, acariciando as inquietudes. Como agora.
Existem as pessoas do buraco para cá das estrelas e as pessoas do buraco pra lá. Mas esses dois lados estão conectados pela porta de entrada e pela porta de saída das estrelas...

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

o início do mundo



quando o mundo começou, minha vó tocava phillip glass e a vó da bel dançava uma valsinha com as estrelas. depois elas celebraram com guefilte fish e borsh. tudo ria. e vieram todas as montanhas, o céu, as nuvens, as escolas, as sereias, um sanduiche, árvores, baratas, macacos, crianças. e por fim eu e por mais fim ainda, minha irmã. outro dia, minha avó acordou à noite e foi até a biblioteca. ela vive reclamando que os dedos estão durinhos e que é mais difícil tocar. mas ela não falaou nada. sentou e tocou toda a valsinha do início do mundo, que ela nunca esqueceu. no céu lá fora, a vó da bel dançava com as estrelas. tudo ria.




E se?

O que define uma teoria é seu caráter especulativo. Teorizar é entender algum fenômeno pela observação. Como uma criança observa? Como deixar a nossa capacidade criativa teorizar?

E se o humano chegou na lua segurando um balão?
E se se o ser humano surgiu do cruzamento de sereia com polvo?
E se o primeiro sanduiche do mundo tiver sido criado pelos pinguins?
E se o mundo começou quando a minha mãe nasceu - eu vi tudo escondido - e depois passou uma nuvem e plantou a minha casa e aí choveram os meus amigos e todos juntos construíram a escola?
E se e se e se?

Como a gente conta a história do mundo através desses olhares?



terça-feira, 4 de novembro de 2014

Início dos tempos

No início dos tempos tudo era poeira. As coisas e nós, poeira no espaço. Poeira de estrelas. Poeira das galáxias no infinito e para sempre. Iluminando a escuridão afora, nós nos tornamos estrelas e toda estrela brilha e nos tornamos constelações e toda constelação está presente em cada um de nós. Os átomos do início dos tempos mudaram, pois tudo muda o tempo todo, mas ainda são os mesmos átomos do início dos tempos, que se unem, formam uma coisa, morrem, desunem e juntam noutra coisa de novo. E assim as coisas nascem e morrem... Mas a essência continua a mesma. Assim, com a mesma essência, somos o passado, somos tudo o que está por vir. Somos o que quisermos ser. Peixe na água, passarinho que bebe a água do peixe, árvore que é a casa do passarinho, fruto saboroso e gosmento da árvore, cheiro do fruto gosmento que chega ao nariz das crianças com fome de trepar na árvore, crianças que pulam, se agarram, dançam, fazem careta para o boi da cara preta, adultos que fazem careta para o boi da cara preta, idosos e coitados bois da cara preta, sofrendo de preconceito racial desde o início dos mitos. Enfim, o que eu apenas estou tentando dizer pra vocês é: um átomo que um dia esteve no rabo de um dinossauro, hoje pode estar no músculo do seu coração.

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No início dos tempos tudo era poeira. As coisas e nós, poeira no espaço. Poeira de estrelas. Poeira das galáxias no infinito e para sempre. Iluminando a escuridão afora, nós nos tornamos estrelas, nos tornamos constelações e toda constelação está presente em cada um de nós. Os átomos do início dos tempos mudaram, pois tudo muda o tempo todo, mas ainda são os mesmos átomos do início dos tempos, que se unem, formam uma coisa, morrem, desunem e juntam noutra coisa de novo. E assim as coisas nascem e morrem...Somos o que quisermos ser. Peixe na água, passarinho que bebe a água do peixe, árvore que é a casa do passarinho, fruto saboroso e gosmento da árvore, somos uma pelanca da vovó bruxa... Enfim, o que eu apenas estou tentando dizer para vocês é: um átomo que um dia esteve no rabo de um dinossauro, hoje pode estar no músculo do seu coração.

Duas versoezitxhas ☺️

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

salinas, 1997

a clarice havia falado que seria interessante trazermos uma foto que lembrássemos o dia que ela tinha sido feita.

salinas é o lugar que tenho mais memórias da minha vida. daqueles lugares que trazem lembranças das brincadeiras com as crianças da vila até o primeiro porre pelas areias da praia em uma viagem de planctus. em 1996, meu pai comprou uma câmera fotografica diferente das outras que ele tinha. isso foi o maior barato para os nossos registros juntos. e essa foto que trago aqui, faz parte da primeria seção de fotos com a nova câmera em salinas, já em 1997. no momento em que meu pai fazia essas fotos eu não sabia que seriam nossas últimas férias em salinas com papai e mamãe casados. a separação de meus pais é um grande marco na minha trajetória. eu dizia: "não acredito que o amor de vocês acabou!". olho pra essa foto e consigo revisitar todos essas sensações. e me sinto feliz.




alcindo cacela 1112

quatro andares de corrimão escorrega bunda, com algumas pausas para voos em janelas baixas de paredes azuis e superfícies-frias-moradas-de-baratas. e a mila latindo e correndo. as escadas tomavam conta dos caminhos da casa e eram elas o chão-obstáculo que os patins iam suaves, nem se pensava se haveria lugar próximo dalí que fosse mais "apropriado" para as rodas azuis e violetas. e a mila latindo e correndo. pausa para comer uma ruffles com ketchup. e a mila latindo e esperando com a língua pra fora. no mezanino mamãe papai riam ao ver o universo que carregavam nos olhos. a rede de segurança era pula pula peludo de rinite a coceira nos olhos, mas tudo bem, depois a gente tomava um banho. e a naza só sorria e nos amava com o amor mais generoso desse mundo.mas enquanto isso, ney, faz fotos... depois elxs crescem. registra agora. passa tão rápido. vittória já ralou o joelho direito de novo a mila já tá batendo a porta do lavabo pro amigo imaginário dela. crianças, bora tomar banho e dormir. mas não antes do nescau gelado com bolacha cream crack com manteiga. com a roupa do trabalho (calça marron, cinto e a blusa que eu sonhava no sonho de retorno), papai vinha ler um capítulo de "o livro das virtudes para crianças". com a roupa do trabalho (calça cinza, blusa branca, tamanco marron e cordão verde que hoje carrego comigo) mamãe vinha dar boa noite, dizer - me enchendo de cheiros - que o quarto tava bagunçado e que não era pra eu - de novo! - ficar acordada até tarde... tantas cores já pintaram esses paredes. tantos quadros já foram separados junto com amores que também separam. a miloca já virou anjo da guarda. a vontade de ser gente grande me levou mundo a fora, fora das paredes de casa... esse vai pra mais uma página do diário.





sábado, 11 de outubro de 2014

um a um

Um por um, entram no palco correndo. Quando chegam no meio, saltam e atravessam para o outro lado. A primeira vez que o fazem é em fila, depois cada um começa a entrar de uma coxia. O ritmo constantemente acelerando. Vanessa pega o baixo e começa a tocar. Em seguida, Jeff pega a guitarra e Rafa senta na bateria. Fernandinha e Vittoria vão para o teclado e Sérgio para a flauta.

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