quinta-feira, 19 de março de 2015

O começo dos tempos - com uma pitadinha de poesia

Fê se senta na cadeira e observa a plateia. Atrás dela, todos começam a soltar os seus instrumentos. Silenciosamente Vanessa se aproxima pelas costas da Fê e tampa seus olhos.



Vanessa: O que você tá vendo?



Fê: Não to vendo nada, ué



Vanessa faz como quem vai desistir da brincadeira, mas Fê aperta a mão da amiga contra os seus olhos.



Fê: Peraí, to vendo! Tem um gatinho bebendo leite. Um sacão e pipoca com asas enormes. Que isso! Gente, isso é pipoca ou pedra? Elas tão se batendo! Cuidado! Uma cadeira passou raspando. Tá chovendo, Vanessa, olha! Quanta água! É o mar mar! Eita. Olha tu ali, bem velha. Você tem uma calda de sereia! Viu esse peixe? UAU! Que buraco enorme! Acho que é um bolo de chocolate, que recebeu um furo gigante feito por um dedão enorme. Tá saindo uma fumaça quentinha, gostosa. Tá chegando mais perto! Olha pra isso menina! Tem de tudo lá dentro. Buraco negro, buraco de minhoca. Acho que é onde começou tudo! Tá muito perto, Vanessa, ele vai me engoliiiiiiiiiiiiiiiiiii BU!



Enquanto As meninas falam o texto, os outros passam por traz da cena, em fila, investigando o caminho da evolução dos animais e suas suspensões poéticas.



Vanessa: No começo dos tempos tudo é poeira. Poeira, que os cientistas preferem chamar de átomos. E nós, que temos licença poética, escolhemos chamar de pontinhos. Poeira. Átomos. Pontinhos. Agora imaginem vários pontinhos! Dependendo do jeito que a gente liga esses pontos, uma forma nova se cria. As opções são infinitas, e é assim que se desenha tudo o que existe. Os átomos são ingredientes fundamentais para cozinhar todas as coisas e nós. Só nesse meu corpo magro, são 7 (fazendo as contas) milhões trilhões octilhões de pontinhos. Tudo é feito dessa poeira de átomos. Tudo o que existe só existe porque seus pontinhos foram ligados e criaram a sua forma.



Fê: Antes deles se ligarem, a poeira ficava espalhada e o espaço ficava todo sujo, empoeirado! Pontinhos por todos os lados. Nada existia ainda a não ser essa poeira que com o tempo foi virando tudo que a gente conhece. O espaço, as galáxias e o infinito com seus átomos todos bagunçados! Antes do começo a gente é essa poeira de cometa, e das coisas que existem láaaa longe. A gente vira planeta em órbita, constelações, que são várias estrelas juntas, o sol! Com o tempo, os pontinhos nos separam e nos ligam de outro jeito ou a outros pontinhos e viramos as montanhas, os mares, dinossauros. Pedacinhos de nós espalhados por tudo que existe. Como uma massinha que podemos amassar e transformar numa rosquinha. E se essa rosquinha grudar em outra rosquinha, elas viram o número oito, que se levar um peteleco, cai e vira o oito deitado, ou o infinito.

Esses pontinhos, que os cientistas chamam de átomos, se juntam e se separam a outros pontinhos o tempo todo. As coisas que deixam de existir, se transformam em coisas novas que estão nascendo. TUDO se transforma. Assim, aquele átomo que estava na ponta do rabo do dinossauro pode estar hoje no músculo seu coração. É só a gente ligar os pontos.

2 comentários:

  1. Clarissovsky, li as duas versões. Fico pensando se isto de simplificar cada vez mais não leva embora também uma certa construção poética que você propõe e que, em nome da significação mais "clara", pode acabar se perdendo nessa escavação infinita em busca das palavras "transparentes" para os pequenos. De fato, vocábulos como "átomo" e, sobretudo, a explicação encadeada e causal da estrutura científica podem causar algum estranhamento. Mas talvez seja até interessante para este começo... (deve gerar aquilo de virar o rosto e franzir a testa para ouvir melhor, que é bem bonito). As imagens e as partituras corporais formam uma outra discursividade que não precisa ilustrar a cena - seria bem redutor, aliás - , mas podem dialogar com a narrativa sim, como vc pensou, criando, por outro lado, uma "poética visual das origens". É interessante pensar que estas narrativas de gênese são sempre meio caóticas e esquisitas mesmo (gênese bíblica; teogonias e cosmogonias dos gregos, repletas de mortes rápidas, cortes, fecundações... tudoaomesmotempoagora). Eu, particularmente, gosto muito dessa cena inicial... Tem expressões agradáveis de ouvir: poeira, pontinhos, massinha, buraco de minhoca etc, que povoam o universo infantil. O texto, na verdade, me parece ótimo. É mais instigante disparar uma série de referências que já convidam ao "fantástico" ou a certo "encantamento" do que explicar tudo de modo causal, claro e dedutivo. Algumas expressões podem até dificultar a compreensão inicial, mas tem uma coisa de "uau!", que é bastante bela, pelo salto do mínimo ao gigantesco, do palpável ao imensurável, da rosquinha ao infinito.

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  2. Mastiguei isso tudo que você me escreveu hoje mais cedo... pedi pra vc comentar aqui no blog, pra dividir as impressoes com o resto desse povo. escrevi essa terceira versao (que vc comentou achando que era a segunda) depois dessas coisas que vc me disse... quando tiver um tempinho, leia e veja se acha que eu contemplo mais as nossas expectativas fantásticas? beijocas e brigada!

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