quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Sanduíche Amanteigado

Pegue um sonho bom. Não é de creme e açuquinha como o da padaria. É de noite de vagalumes na janela da vovó. Vagalumes são bons à noite pra se sonhar bem. Eles iluminam a imaginação dentro da cabeça quando o quarto está escuro e você está dormindo. E por que não está mais escuro lá dentro de dentro do crânio, não dá pra ter medo e pesadelo. Então é assim: você pega um pote de vidro, cata os vagalumes – bastante vagalumes – e prende eles ali dentro, até porque eles não vão ficar ali voando a noite inteira do lado da janela da vovó. E é preciso que eles iluminem todo o sono para que o sonho inteiro não tenha nem uma partezinha ruim. Basta colocar o pote com os bichinhos na cabeceira da cama. Prenda o pote com uma tela com furinhos para que eles possam respirar – você vai soltá-los de volta pra natureza no dia seguinte. E daí você pode dormir. Dorme tranqüilo com a certeza de que esse sonho vai ser um sonho bom.
No dia seguinte você vai acordar leve e feliz. O sonho vai estar nítido, iluminado e reprisando sem parar na sua memória. Pegue o pote, leve até a janela da vovó, solte os vagalumes – não se preocupe, alguns não sobrevivem mesmo, é normal – e daí você precisa ser rápido. Jogue os vagalumes e tampe o pote! Tem que conservar a essência da presença deles, não pode deixar sair. E aí mais uma vez você tem que ser rápido. Você vai abrir o pote e colocar o seu sonho dentro! Uma batidinha com a cabeça de leve e o sonho entrou, e você fechou, e ele ficou lá dentro, flutuante e fantasmagórico... mas perolado!
A essa altura, sua mãe vai estar te gritando lá em baixo pra você descer pro café da manhã. Desça as escadas, como quem não quer nada, leve o pote escondido, para evitar explicações complicadas de se desenvolver, sente ao lado da tua irmã como todo dia, dê bom dia pra sua mãe e pra todo mundo como todo dia, mostre língua pra sua irmã porque você está feliz, tome um gole do Nescau como todo dia, pegue o pão francês do saco, corte, passe manteiga e espere as pessoas se distraírem.
Quando não tiver ninguém olhando, você pega o pote e despeja o sonho numa das bandas do pão amanteigado. Você tem que buscar um momento pra fazer isso bem logo, porque senão corre o risco do sonho coagular no pote. E daí então, você vai comer o melhor sanduíche que você já comeu em toda a sua vida humana.
Além do gosto ser o melhor gosto de toda a sua existência humana, justamente por que é feito das melhores coisas imagináveis, o melhor sanduíche do mundo é uma fórmula bastante concreta para tu te tornares um super-herói. Mesmo que apenas por uma tarde – tempo que o organismo leva pra fazer digestão e renovar o sangue.
Cientificamente, o que acontece quando você come o melhor sanduíche do mundo é: em primeiro lugar, a manteiga no pão irá bezuntá-lo de uma camada escorregadia, o que fará com que, quando ele atingir o estômago, o suco gástrico não consiga corroer muito bem os bons sentimentos com seu ácido destruidor acoplanágico. Ele passa praticamente intacto para o intestino e daí, microcosmicamente, para o sangue. Nesse momento, você, aqui do lado exterior do seu corpo, vai conseguir sentir lá dentro o poder correr nas veias e artérias. Cada glóbulo vermelho vai ser tomado pelo poder imaginativo do sonho fazendo de imaginação e realidade a mesma coisa dentro de você. Resumindo: seu poder será de fazer viver os sonhos bons da sua imaginação.
É importante ressaltar que o que entra no sangue não é o sonho específico que você teve de noite, mas o poder místico dele. O próprio poder de ser sonho. E sem açúcar.
Agora, alguns minutos após a ingestão DELE, você vai sentir modificações energéticas corporais e, de repente, você e sua família não vão mais se mudar de casa, e vão viver ali para sempre, vizinhos do seu melhor amigo, passarinhos cantando de dentro da árvore que invade a varanda, e virando a mesa da cozinha pra comer siri quando voltando de Angra. Sua irmã não vai nem entender, por que os poderes do irmão mais velho não mais funcionarão e você vai acordar em cima da hora pra escola, por que num piscar de olhos você já estará lá, e seus professores vão ser os mais legais e vão deixar você brincar de estudar a matéria que você mais gosta, e a matemática, que é obrigatória, você já vai ter terminado, e vai saber tudo de cor, inclusive a tabuada do nove e a diferença das figuras geométricas. E quando você acordar mais cedo, dá pra ir voando por aí saindo da janela da vovó sem ter que ouvir ela reclamando pra você não se debruçar na janela e nem dizer que já viu um menino morrer assim. Esse momento vai estar cheio de finais felizes, e é só você escolher. O único problema é que são tantos que na hora você fica um pouco sem saber o que escolher. Mas é só ouvir o que o seu coração diz, como sua mãe sempre costuma dizer e você nunca entende o que isso significa. Pode ficar tranqüilo que, dessa vez, os conselhos metafóricos da mamãe vão funcionar como um macete no vídeo-game – dois pra trás, um pra frente + B/ C pra frente + QUADRADO.

A dica foi dada, e espero que vocês compartilhem segredo. Não são todos que podem ter acesso a essas informações. Elas são extremamente sigilosas. Imagina se isso cai nas mãos de um adulto. Sai de baixo. Pode se uma catástrofe, uma hecatombe. E por isso também, nunca nos refiramos a tal receita mágica como sanduíche de sonho, ou coisa parecida – não queremos correr esse risco. Eu costumo chamar de “sanduíche amanteigado”. Se servir pra vocês...


PS: tem um áudio aqui que eu não sei postar junto. Parece que não dá :(

Nenhum comentário:

Postar um comentário